Nietzsche como educador – Um perfil do filósofo alemão.

Por: Roberto Lira  (autor do Sistema GGE de Ensino, das disciplinas História, Filosofia e Sociologia)

“(…) Como poderia eu me confundir com aqueles para os quais há ouvidos agora? – Apenas o depois de amanhã é meu. Alguns nascem póstumos. ” (1)

Foi com a colocação acima que o filósofo Friedrich Nietzsche se apresentou, na parte introdutória de um de seus mais polêmicos e interessantes livros, O Anticristo (ou O Anticristão), escrito em 1888. Nascido em Röcken, uma pequena cidade feudal da Saxônia (2) , em 15 de outubro de 1844, Friedrich Wilhelm Nietzsche era filho de um pastor luterano (tradição que existia na família de seu pai, Karl Ludwig Nietzsche e sua mãe Franziska) e desde cedo recebeu uma educação voltada para seguir os passos do pai.

Garoto introspectivo, Nietzsche, muito cedo tomaria contato com a morte, perdendo o pai (1849) e o irmão, Joseph (1850) e cresceria em uma família chefiada por mulheres (sua irmã, Elisabeth, mãe, duas tias e uma avó paterna), além de padecer, muito jovem de uma severa miopia, que o acompanharia por toda a vida.

Já adulto, Nietzsche sofreu de vários males respiratórios que o fariam mudar com frequência para vários lugares, de clima mais ameno, onde pudesse trabalhar e produzir suas obras, tais como a vila de Sils Maria (3) , localizada nos Alpes suíços, onde passava vários períodos de recolhimento.

Nietzsche foi um dos maiores (para muitos, o maior) filósofos do século XIX e antecipou uma série de questões que foram debatidas e pensadas no século XX, como a pós-modernidade, a superação do homem pelo homem, a crise da razão e das ciências, a crítica da religião e seus engôdos, etc.

Segundo a filosofa Viviane Mosé: “O século XX passa por Nietzsche necessariamente, ou gostando, ou negando” (4), ou seja, a extensão de suas reflexões e a influência dos seus livros não é pouca e pode ser vista na literatura, na psicologia freudiana, na crítica ao modelo educacional engessado e burocrático, na Europa e fora dela, e, especialmente, sua oposição à idéia de que a razão e as ciências salvariam a raça humana e seriam a panaceia para todos os nossos males, até a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais mostrarem os limites de tal empreitada e tal loucura.

Em Naumburg, cidade da Turíngia para onde se mudou (após a morte do pai e do irmão), Nietzsche deu início à sua formação escolar, e aos 14 anos, obteve uma bolsa para estudar na prestigiosa escola de Pforta (onde também estudou o filósofo Johann Fichte).

Ali, Nietzsche foi paulatinamente abandonando seu credo cristão e os planos de se tornar pastor (tal qual seu pai se tornara), fato que se consumara no ano de 1865, quando do seu ingresso na famosa Universidade de Leipzig para cursar Filologia (estudo das letras clássicas), sob a tutela do professor Friedrich Ritschl (de quem Nietzsche se afastaria, em razão de discordâncias intelectuais, entre discípulo e professor).

Em 1869 a Universidade de Leipzig concedeu a Nietzsche o grau de doutor (sem que ele apresentasse qualquer tese ou fosse submetido a exames!!) e, neste mesmo ano, Friedrich conheceu aquele que seria uma de suas maiores influências intelectuais: Richard Wagner, maestro alemão.

Nietzsche dedicou a Wagner o prefácio de seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia (livro detonado pela crítica, que acusava Nietzsche de “falta de embasamento científico”), mas se afastaria do maestro, em 1876, entre outras razões, devido ao excesso de nacionalismo, narcisismo e antissemitismo de Wagner.

Em 1870, já cansado do ensino de filologia na universidade da Basiléia (para onde foi indicado por influência de Ritschl), Nietzsche alistou-se como enfermeiro para lutar contra a França na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), mas sua estada no conflito foi abreviada devido à sua saúde debilitada, o que o levou de volta à Basiléia para se recuperar.

Decidido a mergulhar no estudo e ensino da filosofia (os pré-socráticos gregos), Nietzsche abandonou a filologia, e entre 1869 e 1878, mesmo com a piora de seu estado físico, escreveu e publicou Humano, Demasiado Humano
(1878) e no ano seguinte demitiu-se da universidade, que lhe concedeu uma pequena aposentaria vitalícia, com a qual ele decidiu viver e dedicar o resto dos seus dias a ler, escrever e pensar.

Fora da sala de aula, e padecendo dos velhos problemas de saúde (miopia, dores estomacais e uma enxaqueca que o perseguiu por toda a vida), o filósofo alemão tornou-se um eremita, vagando entre a Itália (Turim) e a Suíça. Numa destas idas e vindas, conheceu aquela que foi, talvez, o único amor de sua vida: Lou Salomé (6) , estudante de 22 anos, apresentada a Nietzsche por seu amigo Paul Reé. Após um não, dado pela jovem Salomé a um pedido de
casamento feito por Nietzsche, o filósofo mergulhou em profunda depressão, o que não lhe impossibilitou de escrever aquela que é para muitos sua principal obra: Assim falou Zaratustra (1883).

Seguiram-se ao longo dos anos vários livros de Nietzsche, tais como Além do Bem e do Mal (1886), A Genealogia da Moral (1887), O Crepúsculo dos Ídolos, O Anticristo e Ecce Homo, que gradualmente foram lhe angariando fama e reconhecimento.

Em 1889 Friedrich Nietzsche teve um ataque de loucura na cidade de Turim, e foi trazido à Basiléia onde foi diagnosticado um estado irreversível de loucura. Nos anos seguintes ficaria aos cuidados da mãe e da irmã, Elisabeth Foster-Nietzsche, na cidade de Naumburg e depois em Weimar, para onde foi transferido por sua irmã e onde seria fundado o Arquivo Nietzsche (centro de estudos de sua obra).

Friedrich Nietzsche morreu em Weimar no dia 25 de agosto de 1900, de infecção pulmonar. As causas de sua morte, tanto quanto sua obra, são objeto de polêmica até hoje, uma vez que seus males físicos foram atribuídos à sífilis,
doença adquirida durante a juventude do filósofo, o que teria contribuído para o agravamento de sua saúde e seu falecimento.

A FILOSOFIA NIETZSCHEANA:

As linhas mestras do pensamento de Nietzsche não são das mais fáceis de se entender (problema que se estende a toda a filosofia alemã), para quem não tem intimidade com a leitura de obras filosóficas, especialmente em um país como o Brasil, onde se lê tão pouco.

Entretanto, quando se começa a estudar a obra do filósofo alemão, algumas questões saltam aos olhos, como, por exemplo sua admiração pela Filosofia Pré-Socrática e a sua crítica feroz ao que se produziu, a partir de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Nietzsche se opôs radicalmente à ideia da razão pura, da ciência, da modernidade e do progresso como tábuas de salvação da raça humana, premissas amplamente debatidas e abraçadas no século XIX.

Lembremos que o filósofo alemão produziu suas obras exatamente em uma época impregnada de profundo “cientificismo”, com a consolidação das ciências da História, da Geografia, da Biologia, da Química e muitas outras, que alimentavam a esperança num progresso ininterrupto da humanidade.

Profundo conhecedor da cultura e da filosofia grega, e leitor de Arthur Schopenhauer (de cuja filosofia se afastou pelo excesso de pessimismo schopenhauriano), Nietzsche voltou seu olhar para trás, para os Pré-Socráticos, para a vida e para a mitologia dos gregos de onde retira os conceitos de civilização Apolínea e Dionisíaca.

Qual seja, a Apolínea (referência ao deus grego Apolo) a razão, opondo-se à Dionisíaca (referência ao deus Dionísio), ou seja, o instinto, tão caro ao filósofo, pois, para Nietzsche, o instinto era o motor, a vontade de potência, e razão pela qual os gregos produziram uma cultura tão rica e tão fértil. Nietzsche levanta-se contra o ideal do intelectual, calcado nos rigores e formalismos da ciência e da filosofia do seu tempo, projeto de perfeição muito distante da realidade dos homens, vulneráveis a todas as intempéries e dissabores colocados no seu dia a dia.

O filósofo propunha uma nova mentalidade filosófica, que levasse em conta o instinto, a afirmação da vida, e o prazer, para além daquilo que pregavam a razão e a filosofia de sua época. Nietzsche propunha uma educação calcada num modelo de homem que se reinventa, a partir dos dissabores a que está vulnerável, emancipado de uma série de “bengalas” tais como a moral, a ética, a religião e todo o mais que, segundo sua concepção, enfraquecem e empobrecem os homens.

Em suma, sua filosofia e seu humanismo (pensado à maneira de Nietzsche) causaram um tremendo impacto na arte, na cultura e na filosofia do fim do século XIX, e ao longo do século XX. Historiadores, sociólogos, psicólogos e educadores, posteriores à época de Nietzsche, são tributários de seu pensamento e suas reflexões.

Descontados os exageros de sua filosofia, e a acusação infundada de ter sido um dos inspiradores ideológicos do nazismo, as obras do filósofo alemão ainda suscitam uma série de debates, dentro e fora do Brasil, e ainda fornecem uma série de balizas para se pensar o lugar dos homens, neste mundo pós-moderno.

NOTAS:

  1. O anticristo, pág.9, Ed.Companhia das Letras, 2007.
  2. Dossiê Nietzsche, Aurélio Rodrigues, Daniel, Universo dos Livros, 2009.
  3. O “solitário de sils Maria”, como Nietzsche se autodenominava.
  4. Café filosófico, TV Cultura, Viviane Mosé, 2009.
  5. Nietzsche lutara na Guerra Franco-Prussiana e ficara bem impressionado com a violência do conflito.
  6. De quem Freud foi amigo.
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