Por: Fellipe Torres

As ideias do educador e filósofo pernambucano Paulo Freire (1921-1997) representam um marco na modernização das práticas pedagógicas no Brasil. Com a publicação de livros como Pedagogia do oprimido (1970), o Patrono da Educação Brasileira fez ataques ao que chamava de “modelo de educação bancária”, cuja característica principal é a transmissão de conhecimentos para os alunos como se estes fossem uma “conta vazia” a ser preenchida.

Em oposição, o intelectual propunha o modelo de “pedagogia crítica”, em que o educando fosse capaz de construir o próprio caminho no processo educacional, munido de ferramentas as mais diversas, sobretudo aquelas fundamentadas no diálogo. “O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. Implica em invenção e em reinvenção”, dizia o educador, a quem foi atribuído o Prêmio de Educação para a Paz da Unesco.

Os avanços de modelos flexíveis de educação, no entanto, não se encerraram com a morte de Freire. Pelo contrário, têm se mostrado uma necessidade recorrente para a sala de aula do século 21. Capazes de abarcar a realidade na qual os alunos estão inseridos e de se adequarem às demandas da Era de Informação, novas ferramentas e métodos de ensino e aprendizagem ganham cada vez mais espaço em instituições de ensino de referência em vários países. Algumas dessas práticas já vêm sendo importadas para o Brasil e adequadas aos processos pedagógicos de cada instituição.

Conheça algumas práticas inovadoras em educação:

1. Flipped Classroom ou Sala de Aula Invertida

Essa metodologia propõe uma alteração fundamental na maneira como se organiza o processo educativo em sala de aula. De modo antecipado, os alunos têm acesso a recursos audiovisuais e interativos – como vídeos, áudios e jogos – para estudarem o conteúdo proposto por conta própria. O aprendizado prévio possibilitado pela tecnologia é consolidado em sala, com a presença do professor (visto como um mediador e facilitador), cuja atuação ficará mais focada em aprofundar o tema, provocar debates, tirar dúvidas e propor atividades.

Segundo um levantamento da universidade norte-americana British Columbia, 80% dos alunos concordam que o formato estimula o envolvimento da turma. A aplicação da Flipped Classroom gera aumento da participação dos estudantes nas aulas em cerca de 40% e da presença de sala em 20%.

Estudado desde meados da década de 1990, o método passou a ser aplicado em 2007 nos Estados Unidos e, desde então, tem ganhado força em várias instituições, inclusive brasileiras. Um exemplo é o material didático produzido pelo Sistema GGE de Ensino e utilizado pelas cinco unidades do Colégio GGE e por escolas parceiras. Desde 2017 os livros contam com vídeos introdutórios aos assuntos a serem estudados, cujo acesso se dá por meio da tecnologia QR Code. Neles, autores do material explanam os conceitos fundamentais do tema. Os alunos assistem ao material antes das aulas e, assim, podem usufruir melhor o momento de interação com o professor.

Aluna do GGE Boa Viagem, Giovanna Silva Ribeiro vê na ferramenta um elemento facilitador para o aproveitamento das aulas. “Eu assisto a todos os vídeos do Flipped, pois facilita no entendimento do assunto antes mesmo da aula, além de ser bem divertido. Gosto de assistir também para revisar o conteúdo antes das provas”, diz a estudante do 8° ano B.

Confira a seguir um exemplo de vídeo utilizado no Flipped Classroom do material didático do Sistema GGE de Ensino:

2. Aprendizado autônomo


Instituições de ensino de vários países têm investido em uma reformulação completa da dinâmica de aprendizagem, a ponto de modificar inteiramente o espaço que tradicionalmente entendemos como escola. Um exemplo é a escola pública australiana Wooranna Park Primary School, fundada em 1971, localizada em área de subúrbio e conhecida por abrigar estudantes de mais de 40 etnias distintas

Inspirado pela filosofia do aprendizado autônomo, o diretor da instituição, Ray Trotter, coordena desde 1997 uma nova maneira de conduzir o processo de aprendizado, cuja responsabilidade é dos próprios alunos. Eles estudam colaborando uns com os outros, envolvem-se em resolução de problemas e têm liberdade para alterar o currículo escolar e, assim, dedicaram-se a assuntos de seus interesses. Aqui, mais uma vez, o professor é um facilitador.

O espaço físico, por si só, é outra ferramenta de eficiência pedagógica, planejada para ser atrativa e dinâmica. Ao longo dos anos, a escola retirou paredes e divisórias, criou estúdios de rádio e televisão, espaços para reuniões, privilegiou móveis que estimulassem a interação, como mesas redondas e sofás. Os alunos têm a possibilidade de circular livremente pelo local, enquanto várias atividades ocorrem simultaneamente. A instituição é referência mundial em criatividade, inovação e engajamento por parte dos alunos.

3. Estímulo à autonomia

Em vários países há instituições de ensino que apostam na autonomia dos alunos como uma forma de inovação pedagógica. Esse formato já é replicado e adaptado no Brasil, como é o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, que fica localizada em São Paulo. Por lá, educadores, funcionários e estudantes integram um formato de gestão participativa, com elaboração coletiva das diretrizes de ensino e do currículo escolar.

Assim, alunos têm a possibilidade de decidir quais conteúdos vão estudar em sala de aula, sempre com a orientação do corpo docente. Em consequência, pode-se contar com turmas engajadas e interessadas no processo de aprendizagem.

Da mesma forma, os pais dos alunos participam ativamente do universo estudantil, integrando, por exemplo, comissões de formatura e de inclusão. A instituição conta com oficinas de cultura brasileira, capoeira, educação ambiental e teatro. O método da Amorim Lima é inspirado na experiência da Escola da Ponte, em Portugal.

Educador e pesquisador de projetos de transformação da educação, José Moran falou ao Sistema GGE de Ensino sobre metodologias ativas e modelos híbridos na educação. Confira a entrevista na íntegra:

Qual o modelo ideal de sala de aula para a nossas escolas?

As salas de aula serão cada vez mais espaços acolhedores, atraentes, abertos para o mundo, nos quais crianças e jovens podem pesquisar, experimentar, desenvolver projetos, aprender juntos e também no seu próprio ritmo, orientados por professores interessantes.

As escolas deverão se transformar em centros de desenvolvimento de competências, abandonando definitivamente a postura de espaços de replicação de conhecimentos. Os professores gradativamente se transformarão em designers educacionais. O papel mais importante dos professores e gestores é apoiar e convencer os alunos de que podem evoluir em tudo, desenvolver autonomia e seu potencial, transformando suas vidas pela aprendizagem, esforço e perseverança. Para isso os docentes precisam desenvolver essa mesma mentalidade neles, a vontade de evoluir, de transformar-se sempre.

As metodologias ativas dão ênfase ao papel protagonista do aluno, ao seu envolvimento direto, participativo e reflexivo em todas as etapas do processo de aprendizagem, experimentando, desenhando, criando, com orientação do professor; os modelos híbridos são o melhor da presença física e da digital para ensinar, aprender, comunicar-se, avaliar.

A aprendizagem invertida é um modelo híbrido, ativo, que faz todo o sentido num mundo conectado, móvel e digital. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aprendizagem invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo.

A aprendizagem invertida faz parte dos modelos híbridos, que destacam a flexibilidade, a mistura, o compartilhamento e o redesenho de espaços, tempos, atividades, materiais, técnicas e tecnologias, que podem contribuir para o processo transformação das aulas, metodologias, do currículo e da escola.

A escola é um espaço privilegiado para experimentar, para ousar, para poder errar sem medo. O que os alunos fazem com seus erros, determina o seu desenvolvimento. Por isso, é tão decisivo o apoio de mentores e orientadores no estímulo à criatividade e no apoio para incentivar possibilidades e revisar erros, superá-los, apontar novos caminhos. A escola e a universidade precisam encantar, envolver, surpreender.

O papel mais importante dos professores e gestores é apoiar e convencer os alunos de que podem evoluir em tudo, desenvolver autonomia e seu potencial, transformando suas vidas pela aprendizagem, esforço e perseverança. Para isso os docentes precisam desenvolver essa mesma mentalidade neles, a vontade de evoluir, de transformar-se sempre.

Qual a importância de implementar um novo modelo de sala nas escolas?

Estamos numa etapa de transição de modelos consolidados para outros disruptivos. O movimento de transformação é desigual no ritmo e na profundidade, mas afeta a todos, em todos os países e sistemas de ensino no mundo inteiro.

É urgente mudar nosso modelo de ensino muito focado em conteúdos prontos, separados, memorizados e focar mais no desenvolvimento cognitivo e socioemocional, no projeto de vida dos alunos, na vivência de valores importantes: saber conviver com as diferenças, a aprender sozinhos e em grupos e a mostrar com projetos, pesquisas e atividades o quanto estão conseguindo aprender em cada momento.

Os estudantes deverão desenvolver a capacidade de aprender autonomamente durante a vida escolar, de forma a serem capazes de continuar aprendendo ao longo da vida, em múltiplos espaços e de múltiplas formas.

Gostou do artigo? Assista aqui à série documental “Destino Educação: Escolas Inovadoras“, produzida pelo Canal Futura e que destaca 12 instituições de ensino do mundo que são referência em inovação.

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