Devido à pandemia causada pela COVID-19, o mundo está repensando as formas de convivência e a saúde emocional tem sido pauta permanente para atravessar o momento. A educação aparece como protagonista agora e no futuro, na árdua tarefa de criar mentes saudáveis, que consigam assumir o controle da própria vida e seguir na busca de uma história feliz. O lastro desse pensamento está na gestão emocional, um caminho que se constrói nas relações humanas, mas que depende da atenção que o ser humano dá a ele mesmo, para que possa interferir positivamente no outro. O tema “como formar mentes livres e emocionalmente saudáveis” foi tratado no segundo episódio da série de lives realizada pelo Sistema GGE de Ensino, que, nesta edição, trouxe para o debate o médico psiquiatra, psicoterapeuta, pesquisador e escritor de best sellers publicados em mais de 70 países, Dr. Augusto Cury.

Durante a live, Dr. Augusto Cury afirmou que o dilema atual é fazer pessoas, alunos, pais e professores se tornarem atores da própria vida, ainda que pertençam a um contexto bastante danoso. Isso será determinante para que, emocionalmente, esses atores possam criar conexões produtivas com outros agentes da sociedade. Estudioso da ciência do pensamento, ele garante que nada mais será o mesmo quando se entender como funciona a complexa construção das ideias na mente humana.

Respeitar o outro exige se respeitar primeiro. Direitos humanos são muito mais que olhar para os desvalidos. É olhar para a história do outro e entendê-la. Quando você entende isso, seu poder de agregar se amplia. E está diretamente relacionado à forma que você conhece a sua história e controla a sua emoção”, descreve. “Na prática, você vai entender que o mais importante para ser transformador é abraçar mais e criticar menos, entender mais e julgar menos”, complementa.

A explicação está na comunicação com o outro, que se torna essencial nesse processo de “ganhar” mentes. “Não se pode apontar erros no meio de um foco de tensão. Apontar erro ativa gatilhos e abre a janela errada. Tira milhares de informações de acesso do seu filho, do seu colaborador, de qualquer receptor da sua mensagem, por uma ação inadequada sua. Você se torna predador de quem você ama”, explica.

O caminho emocional predatório segue a ordem de: ativar um gatinho, abrir uma janela traumática, expandir a memória para criar um auto-fluxo e gerar a reação, que pode ser fuga, se fechar, agredir para se defender, entre outros. No decorrer da live, Dr. Augusto Cury explicou que ao estudar esses fenômenos que outros não tiveram oportunidade de pesquisar, se viu perplexo por constatar que o indivíduo sabe muito pouco dele, do endereço dele mesmo e que precisa se conhecer mais. Se tornar líder de si mesmo é essencial para não ser consumido por esse ambiente tóxico.

Explorem o seu interior, o mais complexo de todos os mundos. A maioria das pessoas segue em cárceres mentais, em janelas de traumas, porque foram ensinadas a participar da vida assim. O resultado é dinheiro que compra cama, mas não compra sono. Possuir bajuladores e não verdadeiros amigos. Nem amigo de si conseguem ser. Isso gera traumas de falar em público, medo da opinião alheia, aversão a lugares fechados. Esse ônus mental da necessidade de aprovação é tão comum hoje em dia. A vida é breve e a resposta é: namore a sua vida ou será algoz da sua emoção”, explica.

Para melhor explicar a sua linha de raciocínio, Dr. Cury utilizou uma metáfora de que a mente é uma aeronave: “a aeronave mental”. A pessoa é o piloto e trabalha com copilotos importantes na construção de ideias, mas que não controlam a aeronave. “O problema é quando um copiloto escraviza a mente do piloto e o faz cobrar demais de si mesmo. É o ato que nos torna nosso próprio predador. Na sociedade, um exemplo claro é o de pais que cobram demais de si mesmo. A maioria de pessoas notáveis são carrascas de si mesmos e, quanto mais cobram de si, mais ativam zonas perigosas que geram ciclos danosos, porque tira o centro da sua mente do controle. Tiram o piloto do comando”, reforça.

Por isso, o especialista ressaltou durante toda a live do Sistema GGE de Ensino, que, no mundo corporativo, em casa, na escola, o entendimento é o de que a gente precisa parar de se cobrar, porque isso reflete na cobrança com colaboradores, com filhos, com alunos. Temos que valorizar as pessoas e entender a construção de pensamento delas. “Primeiro valoriza, depois aponta os erros. Isso muda o olhar. Jesus soube que seria traído e chamou Judas de amigo. Exaltou a pessoa que ele era. Isso é uma ferramenta riquíssima que pais e professores precisam treinar continuamente. Exalte quem erra antes de apontar a falha ou você vai ativar gatilhos e fechar o ciclo de aprendizagem. Quando exalta, você abre a mente e os erros são apontados com elegância. Diga a ele o quanto ele é importante, o quanto é bom para a família, o quanto é essencial para a alegria de todos, mas depois alerte sobre o comportamento inadequado. Com o circuito aberto, a pessoa vai encontrar janelas de informações saudáveis para responder bem e você vai oferecer aquilo que o dinheiro não pode comprar”, ressalta.

O autoconhecimento transformador

Precisamos conhecer quem somos. Que espécie é essa que, ao mesmo tempo que busca e produz vacinas, também fabrica armas? Um povo que fomenta solidariedade e altruísmo, mas que não entende que a cor da pele não pode ser um parâmetro segregador. Estamos na era da medicina e da psiquiatria modernas, prontas para produzir gerações serenas, mas permanecemos tristes e criando conflitos”, analisa Dr. Augusto Cury.

Durante a conversa, Dr. Cury também traz informações sobre pesquisas que indicam que bilhões de pessoas no mundo vão apresentar algum transtorno durante a vida, das quais nem 1% vai se tratar, seja por falta de condições ou conhecimento dos caminhos possíveis. “Outro paradoxo: nos imaginavam como uma geração feliz. Temos uma indústria do lazer fortíssima, seja na música, na literatura, nos games, nas redes sociais. Todo esse arsenal, na verdade, asfixiou o prazer de viver. Criamos um geração de mendigos emocionais, que são aqueles que precisam de muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. É isso? Você precisa de apoio contínuo, de migalhas para expandir seu prazer?”, questiona.

A resposta é clara, segundo Cury. Ele traz também alguns números sobre o sentimento das pessoas nesse quesito:

Não é sem razão que o índice de suicídio assombra. Uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo. E vai além. Uma pessoa a cada quatro segundos pensa em tomar uma atitude nesse sentido. Mas, a tese que eu repito é essa: cada vez que a gente pensa na morte, a gente quer a busca por celebrar a vida. É um sinal que precisamos entender. O ser humano que está no caos pode atentar sobre a própria história, mas é porque ele tem sede de viver. Pensar em morrer, na verdade, é a necessidade de ser feliz e não achar essa felicidade”, destaca.

Aí é que entra o desejo das pessoas. O pesquisador afirma que elas querem se reinventar, gerir sua emoção, mas não têm conhecimento para pilotar a mente. Trata-se de querer dirigir o mais sofisticado e complexo ponto do nosso script. Em determinado momento da live, Dr. Augusto Cury usa um pouco da sua experiência enquanto autor citando que, quando precisou adaptar os livros para o cinema, trabalhou muito para que o roteiro conseguisse atingir as pessoas como nos livros. “O vendedor de sonhos teve um impacto enorme no cinema, emocionou muita gente, porque a ideia era essa, a de que todos entendessem que a gente deve vender sonhos numa sociedade que parou de sonhar”.

Proteja a sua mente e valorize o silêncio

Durante a Live, Dr. Augusto Cury tratou sobre as emoções e como lidar com elas, um tema tão presente hoje nas escolas. Neste ponto, Cury destaca que a mente é um fórum e precisa de um advogado de defesa. “Precisamos proteger as emoções. Se você critica excessivamente, repete falhas alheias ou grita quando passa por entraves, você se torna pai ou um professor insuportável. Tudo isso porque não se protege quando é contrariado, em vez de usar o silêncio proativo. Quando o mundo cair sobre você, entre no fórum da mente humana e silencie. Se proteja em vez de explodir. Porque, com certeza, o que vai sair de você em um momento de adversidade com uma janela traumática aberta será apenas lixo mental”, garante.

Neste momento, ele traz a reflexão:

“você tem prazer em entrar em uma casa suja, cheia de ácaros e comidas estragadas? Claro que não. Faça faxina na sua casa mental, limpe a voz alta. Não queira ganhar a discussão, queira ganhar o coração. Estar sempre certo é um erro que te faz perder respeito. Elimine essa necessidade neurótica de que os outros gravitem na sua órbita.”.

Segundo Dr. Cury, comprovadamente, a educação mundial ensina com habilidade e competência os fenômenos que vão transformar as pessoas em bons técnicos. Mas, não ensina como ser autor da sua própria história. “Tem que ter esse advogado em mente, da faxina permanente de pensamentos perturbadores. Isso abre o olhar para crianças, por exemplo. Crianças são curiosas, querem explorar, acelerar o pensamento, porque é muita informação. O que estão fazendo é apontá-las como hiperativas e ‘jogando’ drogas nelas, quando há uma oportunidade enorme de ela ter um salto de conhecimento. Entender isso é uma habilidade de ouro com o adicional da empatia. Filhos vão parar de buscar heróis da Marvel quando tiverem pais que entendem esse poder.”

Em seguida, Cury completa que o mesmo vale para o silêncio, para o ato de não fazer nada, para entender o tédio. Segundo o estudioso, quem tem asco ao tédio rejeita o leque da própria mente. A solidão, ele afirma, é importante para elaborar as regulações do comportamento, de organizar a responsabilidade do pensar antes de agir. “Cada pensamento perturbador deve ser confrontado nos primeiros cinco segundos ou serão condenados a ser carrascos de si mesmo. Nunca esqueça: duvide de tudo que nos controla, critique ideias perturbadoras, controle sua emoção, recicle o lixo da mente, faça faxina nas emoções. Grite no silêncio proativo e você vai construir uma mente livre, com paisagem reurbanizada. Não é mágica, que acontece do dia para a noite, mas quem faz isso vai mudando e vai tirando o vazio, a angústia, que vêm de onde a gente nem sabe. Você se torna autor da sua própria história, líder de si mesmo”, ensina.

Por fim, partindo desse autoconhecimento, você passa a caminhar na construção de relações saudáveis. “Autoritarismo não constrói relação. É batalha perdida. Eu exijo do outro a atenção que eu não dou para mim. Por isso, saúde emocional é tão importante na grade curricular das escolas, para evitar traumas nas crianças, com professores que sejam sensíveis ao falar com elas. Em tempos de aulas virtuais, o ‘toque’ será ainda mais essencial. Estamos expandindo os números de pessoas estressadas e com depressão. A ideia é transferir as nossas lágrimas para o debate, intensificar o território da emoção a partir das nossas histórias. Não é hora só de mostrar as disciplinas, mas de colocar a história do professor no processo, de como as lágrimas são e podem ser o caminho para o pódio”.

Assista à live na íntegra:

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