Dias letivos, reposições de aulas, cumprimento do programa educacional, aproveitamento das aulas online… São muitas as dúvidas, inseguranças e anseios enfrentados pelos que atuam no setor educacional em 2020. A pandemia da Covid-19 impôs uma série de novos formatos e ajustes ao tradicional modelo de ensino. Diante de todas as inseguranças consequentes do combate a doença, as escolas precisaram se reinventar e agora, com a retomada gradual da economia, tentam buscar entender os melhores protocolos a serem adotados para o retorno das unidades de ensino. Foi esse o debate de mais uma edição do Edu 5.0 Live Meeting, série de lives promovida pelo Sistema GGE de Ensino.

Esta é uma live muito importante neste momento em que está todo mundo se perguntando: quando a gente vai voltar? São muitos os protocolos e fatores que precisam ser discutidos neste momento e, por isso, precisamos debater e entender todos esses pontos”, afirma o gerente-executivo do Sistema GGE de Ensino, Leonardo Siqueira. Abrindo a discussão, o professor e conselheiro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), Eduardo Deschamps, traçou um panorama de tudo que está sendo enfrentado pelo setor de educação no Brasil e em Pernambuco.

Antes de tudo, o especialista deixou claro que quando o CNE começou a trabalhar no Parecer 5, que foi recentemente homologado pelo Ministério da Educação, existia a expectativa da suspensão das aulas e depois uma retomada quase que total das atividades. Porém, a realidade que o país enfrenta com a pandemia tem demonstrado que essa retomada das escolas não será integral. “A rigor teremos um período significativo ainda confuso, até que se tenha uma segurança sanitária mais ampla. E, neste ponto, se fala muito na questão de uma vacina ou na questão da imunização da população, e, por isso, as escolas terão que se adaptar ao sistema híbrido de atuação”, pontua.

Por conta deste cenário, Eduardo Deschamps ressalta que haverá a necessidade de se trabalhar em um contínuo 2020/2021. Por isso, é importante que haja a manutenção do processo de aprendizagem para que não haja a perda do vínculo com a escola. “Também levar em consideração que para tentar salvar o calendário deste ano, a gente se estenda demais por 2021. Isso não funciona. É preciso ter um fluxo. Repor essa carga horária de maneira tradicional é praticamente impossível sem que se avance demais no calendário 2021. Mas, não adianta levar demais para 2021 porque podemos ter problemas de fluxo gigantescos, existem questões contratuais e de planejamento de redes que o sistema não daria conta”, alerta.

O conselheiro do CNE afirma que o órgão começou a estudar em experiências internacionais o que poderia ser feito no Brasil e o primeiro ponto é tirar o foco do cumprimento da carga horária e passar a focar na aprendizagem que está sendo desenvolvida este ano.

O Instituto Reúna está elaborando um documento com marcos focais de aprendizagem, que seriam os objetivos de aprendizagem e as habilidades que são possíveis de ser desenvolvidas, para que cada escola possa reorganizar o seu currículo e considerar os objetivos de aprendizagens para 2020 e alguns deles para 2021”, detalhou.

Aproveitando a explanação do representante do CNE, o secretário de Educação e Esportes de Pernambuco, Frederico Amâncio, disse que o estado segue as diretrizes nacionais do conselho, mas mantém o conselho estadual, que é responsável pelas normas que devem ser implementadas em Pernambuco. Sendo assim, o gestor explica que ainda não há uma data sobre os retornos das aulas presenciais no estado, mas que o governo está trabalhando na elaboração de um plano de convivência específico para a educação.

O documento – que agora está sendo analisado pela Secretaria de Saúde – levará em consideração três pontos: distanciamento, medidas de higiene e monitoramento. Além disso, não será um processo implantado em duas ou três semanas.

Será um plano em etapas. Não colocaremos todos os estudantes ao mesmo tempo. Temos que entender que o universo educacional em Pernambuco envolve três milhões de pessoas, se tratando desde funcionários a alunos. Isso representa um terço da população do estado. É um peso muito grande e, por isso, a retomada precisa ser pensada e de acordo com um plano próprio”, ressalta Frederico Amâncio.

De acordo com o secretário, a palavra chave de tudo que está sendo traçado é: aprendizagem.

Em um ano com tantas limitações, temos a possibilidade, a partir de uma priorização desses conteúdos, que chamamos de habilidades, de estabelecer que podemos reforçar e complementar os conteúdos em anos seguintes. Porém, sabemos que os anos finais (5º ano, 9º ano e 3º ano) são mais delicados porque o estudante está mudando a sistemática de trabalho. Então, provavelmente, a retomada será realizada pelos anos finais e sendo ainda mais prioritário o ano final do Ensino Médio”, detalhou Frederico Amâncio.

Dentro do processo gradual da retomada, sempre levando em consideração o acompanhamento do conjunto de estudantes e atividades, Frederico Amâncio destaca a necessidade do ensino híbrido.

Também precisaremos de um rodízio de turma nas escolas para que não tenhamos estudantes demais ao mesmo tempo nas escolas e, provavelmente, será necessário para que possamos ter convivência das atividades presenciais e não presenciais. Só que aí com um trabalho ainda mais completo”, ressalta o secretário estadual.

Ainda segundo a orientação de Frederico Amâncio, as escolas precisarão ter um planejamento pedagógico para entender que a volta de um período tão complexo como o que enfrentamos, não é simples e necessita, além da infraestrutura adequada para o cumprimento das exigências sanitárias, de um trabalho de orientação, de acolhimento e de medição da aprendizagem.

Será necessária a realização de um diagnóstico de aprendizagem. Não é para dar nota. O que é importante é a percepção da aprendizagem de um conjunto geral de estudantes da escolas assim como o individual. Alguns estudantes podem precisar de mais apoio do que outros. Isso também precisa ser medido”, diz.

O presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco, José Ricardo Diniz (foto), destacou que o sistema educacional nacional vive um momento de uma nova escola e, diante da expectativa da implantação de um plano de retomada, mais um novo momento começa a se desenhar.

Não temos data de volta, mas temos muita expectativa. Este será um momento que vai ser tão ou mais difícil do que estamos vivenciando agora com as aulas remotas. A gestão pedagógica se debruçou sobre as aulas remotas não como uma alternativa, mas como uma imposição da realidade que foi trazida com a pandemia. Quando se começa a discutir um protocolo de volta, é impossível não ter expectativas. Começamos a ver os segmentos profissionais, as atividades econômicas voltando e começa também a inquietação das famílias. Teremos um terceiro momento escolar dentro de um mesmo semestre. São três momentos transbordantes de mudança para todos nós”, enfatiza José Ricardo Diniz.

O representante das escolas particulares do estado aproveitou a Live do Sistema GGE de Ensino para compartilhar um dado preocupante. Segundo ele, Pernambuco conta com 2400 estabelecimentos em funcionamento. Desse total, 70% possuem até 250 alunos atuando principalmente com a Educação Infantil. Desses 70%, ao menos 50% não devem retornar as suas atividades, por dificuldade financeira.

Então, quando colocamos a questão da importância da volta da Educação Infantil é também encarando essa realidade. Muitas famílias retornam ao trabalho e muitos não vão ter com quem deixar a criança. Agora, sabemos que este é um período de aprendizagem. Estamos aprendendo. Vamos transitar para retorno em que teremos a concomitância de duas modalidades. Mas uma coisa é fundamental: cada família conhece seus filhos. Há limitação de muitas famílias, mas a escola vai ofertar a atividade remota de acordo com cada realidade. Os que puderem retornar ao ambiente escolar terão a atenção de todas as regras sanitárias. Acreditamos que é possível”, enfatiza.

Outro ponto que José Ricardo Diniz fez questão de colocar é a preocupação com o argumento de que apenas os anos finais serão inicialmente priorizados. O presidente do sindicato lembra que, no estado, existe o SSA, que é um processo seletivo seriado aplicado nos três anos do Ensino Médio. “Importante que o mapa cronológico leve em consideração que o Ensino Médio tem compromissos com exames vestibulares que irão acontecer na mesma época.”, alerta.

Caminho sem volta

Abrindo a etapa de perguntas desta edição da Edu 5.0 Live Meeting, a gestora pedagógica da Educação  Infantil e Ensino Fundamental 1 do Colégio GGE, Anabelle Veloso reforçou que a educação vive um grande momento de dificuldade onde é preciso entender, enxergar e fazer funcionar novas formas de ensino de aprendizado e até na nova maneira de relacionamento. Sobre este momento, a gestora questionou sobre o modelo de avaliação implantado hoje nas escolas. “Não estaríamos perdendo a oportunidade de também evoluir em avaliação?”, questionou.

No primeiro momento, a resposta veio de Eduardo Deschamps, que disse que o CNE abriu todas as possibilidades possíveis e acredita que todo o processo está relacionado com o projeto pedagógico que a escola está implantando.

O processo de avaliação pode ser muito mais do que classificatório. Pode ser que garanta a recuperação paralela para que o estudante tenha a aprendizagem garantida. Um tema polêmico que em breve começaremos a discutir é sobre reprovação. Vários países do mundo baixaram uma lei proibindo a reprovação. Então, é um tema que vamos começar a debater neste processo de retomada. Não queremos chegar na lógica da aprovação automática, mas também não queremos criar um processo de aumento excessivo de reprovações neste momento”, disse.

Sobre o tema, o presidente do sindicato das escolas particulares, José Ricardo Diniz, reforçou que, independentemente da pandemia, o foco é na aprendizagem e não o resultado somativo.

Vamos avançar porque houve um processo de ruptura. Isso está nos levando a repensar uma escola nova. E a avaliação entra como um elemento necessário, mas não como um elemento fita métrica para aprovar ou reprovar o aluno”, cita.

O secretário estadual de Educação concordou que este é o momento de se repensar o processo de avaliações como um todo. Segundo ele, essa definição sobre avaliações deve vir na resolução do conselho estadual, que será inspirada na resolução do CNE.

Até o tipo de avaliação deve ser revisto. Não pode ser uma avaliação que estabeleça para os estudantes uma “punição” por aprender e não aprender, estudar ou não estudar. Tem que se comprometer. Tem que ter um planejamento para o retorno e a escolas precisam ter um olhar para que tipo de avaliação deve ser aplicada pensando no benefício maior do estudante”, finaliza.

Outro ponto levantado, dessa vez pelo diretor do Colégio Decisão, Carlos Costa, foi sobre a implantação do sistema híbrido. A dúvida, comum entre pais e gestores das escolas, é como será esse modelo.

Cada escola terá autonomia para avaliar o que pode ser implantado?”, questionou Carlos Costa.

Sobre o assunto, Eduardo Deschamps, lembrou que, quando o CNE começou a trabalhar o parecer sobre as aulas não presenciais, trabalhava com a lógica de que autorizaria atividades não presenciais em um determinado período e depois, com o retorno, as não presenciais deixariam de ser computadas. Porém, à medida que as experiências internacionais foram aparecendo, o órgão começou a entender que não seria possível restringir as atividades não presenciais a apenas um período. Foi daí que se gerou a ideia que mesmo quando tiver retorno ainda estará autorizada as atividades não presenciais de acordo com o desenho pedagógico que cada escola vai realizar.

Estamos quebrando resistências que existiam antes e que hoje não tem mais sentido. Então, quando eu retornar não poderei ter todos os alunos todo tempo na escola e, mesmo que eu tivesse, seria de bom tom ter algo não presencial como forma de fazer uma recuperação, de dar reforço e corrigir alguns problemas. Vai ser muito mais. Temos discutido muito no CNE que tem que quebrar essa dicotomia entre ensino presencial e à distância. Não existe isso. Existe ensino. Existe aprendizagem”, ressaltou Eduardo.

Frederico Amâncio ressaltou que a pandemia impôs diversos desafios e que, agora, teremos que ter uma associação entre os dois modelos.

Já temos necessidade de complementação de carga horária com conjunto de conteúdos e também temos desafios com o fato de que teremos uma retomada, mas não poderá ter a mesma quantidade de alunos em uma sala de aula. A decisão final virá da secretaria de saúde. Ela quem irá dizer se faz sentido. Mas, a primeira intenção é: observada a questão do distanciamento, observada a questão de higiene, a forma de organização da escola, pretendemos que haja a organização pelas redes. Então, haverá uma mudança do planejamento pedagógico. A ideia é usar o sistema híbrido para fortalecer e não pra ser simplesmente aula de outro jeito”, diz.

Ainda sobre o sistema híbrido, Frederico Amâncio ressalta que o conselho estadual de educação irá escrever a resolução de uma forma que cada escola possa observar as suas peculiaridades.

Na rede pública, por exemplo, no Ensino Médio, a maioria é da rede integral. Então, não tenho contraturno. Eu terei que alternar dias e semanas, por exemplo. Ou seja, teremos que avaliar primeiro os protocolos de saúde para depois vir o pedagógico, que poderá ser adaptável”, explica.

O professor José Ricardo Diniz, acrescentou que a Fundação Carlos Chagas publicou recentemente uma pesquisa com 15 mil professores do país e 65% deles entendem que houve um peso maior para eles. Ao mesmo tempo eles acham que o remoto e o presencial vão existir permanentemente. “Então, há uma consciência de que tudo veio para convergir. O sistema híbrido veio para ficar. Não há dúvidas com relação a isso”, concluiu.

Outra pergunta foi feita por José Antonio, sócio diretor do Colégio ISO/Paraíba, que questionou se existe prazo ou orientação do CNE sobre como avaliações serão realizadas na Educação Infantil.  “A parte da avaliação dentro do CNE tem sido tratada pela conselheira Maria Helena e a gente ainda não chegou a fazer um debate específico dos anos iniciais para além do que trata o parecer 5. Mas, neste primeiro momento, não tem algo tão específico para os anos iniciais”, respondeu Eduardo Deschamps.

A nova escola

Como será o retorno às aulas, o modelo que deve ser adotado e como que as escolas podem se preparar para este momento da retomada foram questões bastante levantadas no chat da Edu 5.0 Live Meeting . Sobre este ponto, os três palestrantes chegaram ao consenso de que a comunicação será primordial.

A escola terá que dialogar com os pais e explicar que não dá para pensar de maneira linear. Tem que ter flexibilidade de lidar porque tem que atender professores, alunos e pais”, alertou Eduardo Deschamps.

Para ajudar neste período de adaptação, o Sindicato das Escolas Particulares de Pernambuco elaborou um e-book com orientações gerais e ressaltando a importância de que cada escola ajuste os protocolos à comunidade escolar. “A comunicação deve ser algo constante porque confiança virá com percepção efetiva. Tudo tem que ser encarado de maneira acolhedora para que se reconquiste a convivência humanizada. Mas esta será uma conquista passo a passo”, disse José Ricardo Diniz.

De acordo com Frederico Amâncio, não é apenas processo de normas sanitárias, a escola terá uma dinâmica diferente, então é importante trabalho de diálogo com estudantes.

Quando tiver a retomada, não é simplesmente ter o calendário da aula. A escola tem que se replanejar. Tem que ter orientações para a equipe pedagógica e depois ter diálogo com pais e estudantes para entenderem”, enfatizou. Sobre este tema, Eduardo Deschamps, ressaltou, ainda, que a volta precisará ter também o cuidado com o emocional. “É sempre bom lembrar que a escola faz parte da rede de proteção social. A não convivência social causa uma lacuna gigantesca. Por isso, o CNE colocou que o primeiro momento deste retorno é o de acolhimento. Porque precisa ver a questão emocional de cada um antes de ir para aprendizagem”, orientou.

Por fim, o secretário estadual de Educação e Esportes reforçou que o modelo a ser adotado no estado e quais segmentos de ensino que terão a retomada inicial ainda não foram definidos. Por enquanto, o setor acompanha modelos aplicados em outros países.

A educação infantil tem o peso econômico, mas, o nosso olhar hoje é o Ensino Médio, por conta da importância do Enem e do SSA. Mesmo cuidado deve ser tomado com as séries finais. Em seguida, vai avançando”, detalha Frederico Amâncio.

Quer entender mais sobre os desafios educacionais em 2020? Assista a seguir a líve da íntegra:

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