A pandemia da Covid-19 trouxe diversas mudanças, mas também antecipou transformações que estavam na iminência de acontecer. O uso de novas tecnologias em sala de aula é um exemplo. As escolas e, principalmente, os professores tiveram que se reinventar e descobrir um novo universo. Um mundo repleto de novas possibilidades, mas que já estava pronto para ser posto em prática. Esse conjunto de práticas pode ser chamado de Educação 5.0. Foi este o tema de da última edição de julho do Edu 5.0 Live Meeting, série de lives promovidas pelo Sistema GGE de Ensino.

A professora doutora Maria da Graça Moreira da Silva (foto), docente do Programa de Pós Graduação da USP, começou o debate afirmando que o futuro está aqui e agora.

Uma questão simples e básica é: a leitura deste mundo de hoje não pode ser feita com os mesmos instrumentos que tínhamos no passado. Isso significa que vamos ter um novo olhar e usar esses novos instrumentos para conseguir ler este mundo, digital e contemporâneo”, provocou.

Como exemplo, Maria da Graça citou as aulas de biologia, onde, antes, o coração era apresentado por uma imagem com setas indicando o que representava cada parte do órgão. Hoje, com novas linguagens e tecnologias, a apresentação pode ser realizada de forma tridimensional, com formatos e movimentos mais próximos da realidade.

É claro que as tecnologias são ferramentas para a gente interagir neste novo mundo, na nova ferramenta digital. Todos têm que entender desta cultura e isto é o mais desafiador. Nessas novas culturas, os nossos alunos já têm outra educação, um outro olhar. Eles já um têm sistema midiático. Uma outra forma de enxergar o mundo”, ressalta.

Para entender esse novo mundo, que está inserido na chamada web 5.0, a professora realizou uma espécie de volta ao passado, explicando todos os movimentos que antecederam esta realidade que vivemos hoje. Assim, na Web 1.0, o primeiro momento da internet, a figura mais apropriada para representá-la são os barcos. “Navegar pelo mar das informações. Se conectar e estar na superfície navegando”, diz a professora Maria da Graça, completando que isso é importante porque foi neste momento que tínhamos o computador e a interação com o aluno era realizada por meio de softwares educacionais, muita pesquisa em dicionários, enciclopédias e apresentações em Power Point. “A linguagem era representada por uma tartaruga que respondia aos comandos”, lembra.

Na Web 2.0, nada mudou bruscamente, mas, sim, a forma como as pessoas foram aprendendo a usá-la.

A partir daí, surgem novas ideias. Então, de uma web onde todo mundo baixava, passamos a uma web mais social, porque passamos a ter imersão em autoria e compartilhamento. Daí surgem as selfies, implantação de laboratórios, e-mails, projetos de pesquisa e a grande novidade: os blogs”, conta a professora destacando que, a partir desse momento, as pessoas passaram de navegadores a autores.

A sequência do movimento, a Web 3.0, passa a ser mais cognitiva.

É o momento em que aquela autoria passa a ser mais concreta. Passa a ser trabalhada a robótica, as tecnologias e os ambientes imersivos, onde se trabalha em grupo e buscando soluções”, explica.

De acordo com a professora Maria da Graça, ao chegar na Web 4.0, que passou a ser chamada de web simbiótica, já se tem um uso tecnológico e o desenvolvimento da Web de forma diferente. A partir daí, se começa a se falar sobre a interação de humanos e computadores.

“Essa etapa vem, então, nessa conexão entre o homem e a máquina. Já tem sistemas que aprendem, desenvolvem atividades, realidade virtual, realidade aumentada e uma comunicação que se adapta ao contexto. Já tem uma relação da tecnologia e das pessoas. Na educação, já temos algo bastante voltado para grupos e pequenos grupos, desenvolvimento das competências socioemocionais e também desenvolvimento da educação personalizada. Os sistemas começam a entender onde a pessoa está inserida. Então, este é um momento interessante de empatia. Podemos planejar em conjunto e propor uma ação que possa chegar ao final em um período curto de tempo. A ideia é que alunos façam, participem, discuta, conheçam e aprendam. Na escola, passamos a ter mais dois componentes: explorar e criar”, detalha.

Por fim, se conseguiu chegar à Web 5.0, justamente o que estamos começando a trabalhar agora. Diante da pandemia, a tecnologia começou a ser utilizada de forma mais saudável, produtiva e criando situações e produções tecnológicas que sirvam para transformar a realidade de algumas pessoas e algumas comunidades.

Para isso entra em cena o chamado protagonismo social.

Estamos no momento de pensar em todos. Pensar em comunidade. Também começamos a diminuir a separação entre homem e tecnologia. É um trabalho mais focado e integrado em pessoas. A ideia é ter uma relação com a realidade, com atividades que tenham o envolvimento com as pessoas. Essa é uma grande mudança que a gente vai ter de agora pra frente. Já existem escolas, inclusive, que não têm um local fixo. A cada período eles estão em ambientes diferentes”, relata.

Seguindo as explanações, a professora e coordenadora da FGV, Tatiana Soster (foto), tratou de elementos que surgiram no momento de pandemia como uma antecipação da educação 5.0, entre eles, a importância da tecnologia na educação e de termos uma educação centrada no ser humano. “A sociedade 5.0 já resolveu muitos problemas com os aparatos tecnológicos. Se a escola já forma alunos para uma sociedade baseada em tecnologia e centrada no ser humano, já faz parte disso. Somos uma grande sociedade em contexto global”, enfatiza.

De acordo com Tatiana Soster, se a escola ainda não está inserida neste contexto, primeiro é preciso ter um diagnóstico olhando as perspectivas da sociedade 5.0, que é baseada em tecnologia e centrada no ser humano. “Uma vez que eu vi onde eu estou baseada neste contexto, eu vou fazer um planejamento traçando onde estou e para onde quero chegar. Se eu quero um aluno protagonista, eu preciso garantir que meu professor, meu gestor também sejam. É uma cadeia”, orienta, destacando que é importante analisar todos os atores que fazem parte deste contexto: gestores, pedagogos, professores, administrativo, alunos, pais e para a comunidade. “Hoje está evidente a necessidade de trabalhar em parceria com quem está em contato com os alunos”, diz.

Na elaboração do plano, a professora Tatiana Soster orienta os gestores a responder a algumas perguntas como, por exemplo: que tipo de estrutura física e digital eu vou oferecer? Qual o currículo? Qual a melhor forma de trabalhar isso com meu aluno? “Dentro da BNCC existe uma proposta imensa de possibilidades. São questões que precisam ser respondidas e focadas”, orienta.

Aproveitando o momento, a especialista citou algumas ferramentas que podem ser úteis para começar este trabalho.

A primeira delas é o Centro de Inovação para a Educação Brasileira, que traz instrumentos para fazer diagnóstico para a escola, além de avaliações para o professor, propostas de currículo para a tecnologia, além de opções para ajudar escola e docentes neste momento de transição. A segunda indicação é o site Nova Escola, onde podem ser encontrados diversos planos de ensino e aprendizagem abertos com uso de tecnologia.

Para os que buscam cursos, a indicação é o Curso Aprendendo Aprendizagem Criativa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, que vai ajudar o professor e gestor a entender um pouco mais sobre educação maker. Para quem busca recursos práticos, há duas indicações: a Khan Academy, recurso digital que tem aulas prontas em português, matemática e ciência, e a Relia – recursos educacionais com licenças abertas, onde é possível baixar cursos educacionais gratuitos.

Outras informações também podem ser encontradas no Fab Learn, rede de profissionais que já trabalham com educação maker e já produziram livros sobre o tema. “Indico também minha tese de doutorado que foi resultado de uma pesquisa de doutorado sanduíche que fiz junto com a universidade de Stanford, mergulhada no Vale do Silício”, relata. A tese tem como título: Revelando as essências da educação maker.

Finalizando a apresentação inicial, a professora e coordenadora da FGV, Tatiana Soster, disse ter feito uma pesquisa com escolas que são consideradas voltadas para a educação 5.0, de modo a identificar o que elas estão fazendo. “Percebi que elas estão olhando para os objetivos de desenvolvimento sustentável. A escola é um ambiente protegido, mas já entendemos que podemos trazer, sim, problemas reais para serem solucionados. Na Finlândia, tem uma política pública educacional que trabalha não mais olhando a perspectiva educacional, mas, olhando a perspectiva do fenômeno. A partir daí, toda a construção do conhecimento é feita com uma aprendizagem que foca no autoconhecimento”, conclui.

Perguntas e Respostas

Abrindo a etapa de perguntas, o Diretor de Ensino do Colégio Decisão, Daeme Gonçalves, destacou que muitas vezes os gestores se veem sem saber como aplicar a tecnologia em sala de aula.

A pandemia veio para acelerar e implantar mudanças na rede toda. Então, será que os professores estão sabendo de fato usar essa tecnologia e envolvendo os alunos? Existem pesquisas que mostram que os jovens estão lendo menos. Porque com tanta tecnologia não conseguimos fazer os jovens lerem mais? E porque alguns influenciadores com abordagens bastante supérfluas conseguem ter tantos seguidores?”, questionou.

Respondendo as dúvidas, a professora Maria da Graça disse que, de fato, os professores têm muita expertise e domínio nas aulas presenciais, mas, ainda pouco contato com as tecnologias.

“Na PUC, a primeira coisa que fizemos foi chamar os alunos. Eles aprenderam a usar as ferramentas e passaram a serem monitores de seus professores. Então, esse momento aproximou as gerações. Por um lado, os alunos mais novos com fluência na área de tecnologia procuraram ajudar os professores a entenderem essa nova linguagem. Acabou ressignificando o trabalho do professor. Por isso, a autoavaliação do professor é tão importante. Porque vai identificar o que ele faz e o que ele poderia fazer. Isso vai ajudar, inclusive, a escola na organização da formação dos professores de forma mais personalizada, indo direto naquilo que eles precisam. Isso não significa que a escola precise mudar o todo”, orienta.

Sobre a inserção de games dentro do contexto escolar, a professora orientou o desenvolvimento de projetos em que os alunos atuem em pequenos grupos ou momentos em que os próprios alunos possam desenvolver regras para terem seus jogos.

É a ideia do protagonismo. É difícil? É. Mas, precisamos mudar a cultura e dar para o aluno a chance dele fazer. A ideia é trazer humanos fazendo coisas. Mas, para isso, precisa do desapego e dar o espaço para eles. Além disso, o professor precisa conhecer os alunos. Entender o mundo e a linguagem que eles estão inseridos”, ressaltou.

Complementando, a professora Tatiana Soster sugeriu a elaboração de um diagnóstico sobre as aulas remotas.

É preciso ter reuniões constantes dos professores para ter a troca de experiências. A tecnologia não vai onerar desde que isso seja percebido. E, para isso, a gestão precisa mostrar o caminho. A gestão é de onde começa a estrutura. É ela que está organizando todo o momento de transposição e por isso ela precisa se colocar tecnológica utilizando instrumentos colaborativos”, disse.

Sobre os influencers, a especialista disse que tem fases dos alunos que eles preferem mais o visual do que os livros e, por isso, o estímulo é importante.

Pais e professores precisam estimular. Teve uma oficina que eu participei que a gente lia um livro e pedíamos que eles representassem uma cena que tinha naquele livro. Então, a internet tem infinitas possibilidades e conectividade para fazer isso”.

A segunda pergunta veio do coordenador pedagógico do Colégio ISO, da Paraíba, que questionou como fazer para que os alunos possam se encantar com a educação. “Qual o papel dos coordenadores e gestores para que os professores busquem novas tecnologias e meios de encantar os alunos?”, perguntou.

A professora Tatiana Soster respondeu que a coordenação pedagógica precisa criar experiência de aprendizagem para o professor. Dessa forma, segundo ela, o docente poderá experimentar novas tecnologias e construir de forma colaborativa. “Acredito muito que o que a gente deseja ensinar para o outro a gente precisa saber. Então, a equipe pedagógica tem oportunidade de criar experiências para professores vivenciarem e debaterem todos juntos. A gestão precisa criar um espaço seguro para o professor conseguir atuar. Isso é empatia. É o demonstrar que estão todos juntos”.

Em seguida, compilando duas perguntas do chat da live, o gerente editorial do Sistema GGE de Ensino, Fellipe torres, trouxe ao debate o desafio imposto pelas habilidades da BNCC, sobretudo, porque as habilidades sociomecionais entraram na equação e as escolas tiveram que se adaptar. “Uma certa angústia que existe é como fazer isso no Ensino Médio e transformando essa BNCC do Ensino Médio em um ambiente propício para trabalhar a educação 5.0. Nós enquanto sistema de ensino temos a preocupação em oferecer ferramentas e não sobrecarregar o currículo. Então, como fazer isso?”.

A inovação não é só vinculada ao uso das tecnologias. Então, quando se fala em tornar o aluno mais autor para esse mundo, em desenvolver competências, significa que a gente pode fazer isso com mais ou menos tecnologias. A inovação está no desenho do currículo, do uso que se faz disso. A inovação do ensino não vem das tecnologias ela vem da escola”, respondeu a professora Maria da Graça.

O posicionamento foi reforçado pela professora Tatiana, que disse que implementar essas mudanças é um desafio mais que necessário.

O professor precisa saber escolher quais os conhecimentos que precisa trabalhar em sala de aula. Quando a gente traz problemas reais para o centro da sala de aula, dá oportunidade de conhecimentos diversos que vão estimular os alunos. Quando volta para sociedade 5.0, a tecnologia está aí. A gente vai usar, mas ela é centrada no humano e os humanos são sensações”, finaliza.

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